Monthly Archive for April, 2009

Desculpas

Johnny Cash em fuga...

Queria pedir desculpas a todas as pessoas que procuraram por mim e eu não estava lá. Àquelas que quiseram estar comigo e eu fugi. Às pessoas que quiseram me amar e eu não deixei. Àquelas que precisaram de mim e eu decepcionei.

Queria pedir desculpas também por todas as vezes que ostentei uma falsa perfeição moral, agredindo os que não tinham medo de admitir a sua natureza humana.

Também peço àqueles que eu abusei do direito de ser humano e forcei erros e mais erros, falhas e mais falhas, com boas ou más intenções. Afinal, erros são sempre erros e machucam da mesma forma.

A você em especial, peço desculpas por ter deixado o telefone tocando, sabendo que tudo o que queria era ouvir a minha voz, desabafar sobre o dia ou me contar uma novidade. Desculpa. Saiba que hoje me arrependo de não ter permitido a sua aproximação. De uma forma que só o destino ou Deus sabe fazer, agora sofro o que mereço. Essa sensação de ficar esperando o telefone tocar e lembrar que mandei todos embora não é das melhores. Mas é o preço e eu preciso pagar. Talvez lhe console saber que passo por isso.

Existem também aqueles que não fui capaz de perdoar. Peço desculpas pelas coisas que falei, pelas artimanhas que tramei e também por ter ido tão longe em nome da vingança.

Peço desculpas por ter feito tantas besteiras em nome do orgulho, medo e egoísmo. Por aquelas vezes em que deixei alguém na mão apenas pra sair por cima. Por todos que ofendi por terem feito algo que considerei humilhação (muitas vezes nem eram). E todas as vezes que pensei apenas em mim, magoando alguém.

Desculpa, o problema é comigo.

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Saiba disso

Chegou a hora de dizer sim.

Quando saio, procuro por você pelas ruas. Saiba disso.

Saiba também que bebo na esperança de conseguir, por um completo desatino, criar coragem de telefonar-lhe outra vez. E que sinto saudade do tempo em que eu conseguia ser menos corajoso e mais inconseqüente. Dessa forma, não teria receio algum do que você pensaria ao ver o meu número chamando no seu celular.

Às vezes ando pela cidade, por lugares os quais realmente não fazem parte da minha trajetória, ansioso pelo momento em que vou lhe enxergar, mesmo que ao longe. Saiba disso.

Saiba que os meus cigarros estão prestes a acabar e, toda vez que isso acontece, lembro-me que você não vai estar ali pra me lembrar que preciso cuidar da minha saúde, ou não posso me desgastar tanto por besteiras sem utilidade. Saiba disso.

Saiba que às vezes beijo, abraço, passo as mãos por cabelos e sinto cheiros. E nesses outros corpos, outras sensações, outros prazeres procuro apenas um. E esse nunca está lá. Saiba disso.

Saiba também que as noites são longas, muito longas. Enlouquecidamente agitadas e alucinadamente recheadas de fugas azuis, mas o meu desejo maior é de encontrar-me novamente naquelas tardes onde não é preciso fugir. Saiba disso.

Cansei da bela fuga. Essa beleza de andar, da solidão de cantar e rumar em outra direção não é mais a mesma. A liberdade reside também no direito de ficar. Cansei de dizer não. Chegou a hora de dizer sim.

Saiba disso.

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A trapaça

Ela dorme.

Por alguma outra piada do destino, a primeira visão que tive ao acordar foi de você, de olhos fechados, respirando suavemente e, provavelmente, sonhando com algum lugar melhor do que onde estávamos. Não pude sequer lhe beijar a testa, como faria normalmente. Não pude ficar olhando. Não pude fazer nada.

Me levantei rápido. Olhei a janela e percebi o sol já bastante forte. Procurei um cigarro e acendi. Peguei a guitarra que estava jogada num canto, me sentei e comecei a dedilhar os acordes da música que tinha aprendido no dia anterior. Você se moveu na cama, procurou por mim e me viu escondido atrás daquela música tocada baixinha, depois voltou a dormir, ou pelo menos fingiu fazer isso.

Enquanto tocava, meus pensamentos passaram pelo ocorrido. Cenas de um clipe triste, amargo e ressentido. Olhares não importavam mais. A música tinha tomado tons menores. As aventuras se encerravam e o que sobrava era a despedida, alguns cigarros e uma piada interna cuja graça havia passado. Talvez eu até desejasse que fosse diferente, mas o Orgulho (sempre ele) e o medo de abrir novas feridas em cima de velhas cicatrizes me impediam de mudar os fatos.

A verdade é que, como sempre, eu não estava lá. Essa força misteriosa que faz tudo passar veio e lhe levou. Você foi, como todas as outras coisas. Levou consigo aquelas risadas e uma boa quantidade de álcool e cigarros.

Eu, como sempre, trapaceando no jogo, não me permiti perder tudo. Emoldurei algumas emoções, alguns traços, alguns acordes, algumas lembranças. Você virou um personagem.

Agora é imortal.

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