A trapaça

Ela dorme.

Por alguma outra piada do destino, a primeira visão que tive ao acordar foi de você, de olhos fechados, respirando suavemente e, provavelmente, sonhando com algum lugar melhor do que onde estávamos. Não pude sequer lhe beijar a testa, como faria normalmente. Não pude ficar olhando. Não pude fazer nada.

Me levantei rápido. Olhei a janela e percebi o sol já bastante forte. Procurei um cigarro e acendi. Peguei a guitarra que estava jogada num canto, me sentei e comecei a dedilhar os acordes da música que tinha aprendido no dia anterior. Você se moveu na cama, procurou por mim e me viu escondido atrás daquela música tocada baixinha, depois voltou a dormir, ou pelo menos fingiu fazer isso.

Enquanto tocava, meus pensamentos passaram pelo ocorrido. Cenas de um clipe triste, amargo e ressentido. Olhares não importavam mais. A música tinha tomado tons menores. As aventuras se encerravam e o que sobrava era a despedida, alguns cigarros e uma piada interna cuja graça havia passado. Talvez eu até desejasse que fosse diferente, mas o Orgulho (sempre ele) e o medo de abrir novas feridas em cima de velhas cicatrizes me impediam de mudar os fatos.

A verdade é que, como sempre, eu não estava lá. Essa força misteriosa que faz tudo passar veio e lhe levou. Você foi, como todas as outras coisas. Levou consigo aquelas risadas e uma boa quantidade de álcool e cigarros.

Eu, como sempre, trapaceando no jogo, não me permiti perder tudo. Emoldurei algumas emoções, alguns traços, alguns acordes, algumas lembranças. Você virou um personagem.

Agora é imortal.

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2 Responses to “A trapaça”


  • Triste, meu querido. Muito triste.

  • Ae tu gravas a musica, lança na internet, faz um sucessão e ai ela vai fazer questão de que tu voltes a deitar com ela, kkkkkkkkkk

    mas concordo com o Anderson, é triste, meu rapaz…

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