Desculpas

Johnny Cash em fuga...

Queria pedir desculpas a todas as pessoas que procuraram por mim e eu não estava lá. Àquelas que quiseram estar comigo e eu fugi. Às pessoas que quiseram me amar e eu não deixei. Àquelas que precisaram de mim e eu decepcionei.

Queria pedir desculpas também por todas as vezes que ostentei uma falsa perfeição moral, agredindo os que não tinham medo de admitir a sua natureza humana.

Também peço àqueles que eu abusei do direito de ser humano e forcei erros e mais erros, falhas e mais falhas, com boas ou más intenções. Afinal, erros são sempre erros e machucam da mesma forma.

A você em especial, peço desculpas por ter deixado o telefone tocando, sabendo que tudo o que queria era ouvir a minha voz, desabafar sobre o dia ou me contar uma novidade. Desculpa. Saiba que hoje me arrependo de não ter permitido a sua aproximação. De uma forma que só o destino ou Deus sabe fazer, agora sofro o que mereço. Essa sensação de ficar esperando o telefone tocar e lembrar que mandei todos embora não é das melhores. Mas é o preço e eu preciso pagar. Talvez lhe console saber que passo por isso.

Existem também aqueles que não fui capaz de perdoar. Peço desculpas pelas coisas que falei, pelas artimanhas que tramei e também por ter ido tão longe em nome da vingança.

Peço desculpas por ter feito tantas besteiras em nome do orgulho, medo e egoísmo. Por aquelas vezes em que deixei alguém na mão apenas pra sair por cima. Por todos que ofendi por terem feito algo que considerei humilhação (muitas vezes nem eram). E todas as vezes que pensei apenas em mim, magoando alguém.

Desculpa, o problema é comigo.

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Saiba disso

Chegou a hora de dizer sim.

Quando saio, procuro por você pelas ruas. Saiba disso.

Saiba também que bebo na esperança de conseguir, por um completo desatino, criar coragem de telefonar-lhe outra vez. E que sinto saudade do tempo em que eu conseguia ser menos corajoso e mais inconseqüente. Dessa forma, não teria receio algum do que você pensaria ao ver o meu número chamando no seu celular.

Às vezes ando pela cidade, por lugares os quais realmente não fazem parte da minha trajetória, ansioso pelo momento em que vou lhe enxergar, mesmo que ao longe. Saiba disso.

Saiba que os meus cigarros estão prestes a acabar e, toda vez que isso acontece, lembro-me que você não vai estar ali pra me lembrar que preciso cuidar da minha saúde, ou não posso me desgastar tanto por besteiras sem utilidade. Saiba disso.

Saiba que às vezes beijo, abraço, passo as mãos por cabelos e sinto cheiros. E nesses outros corpos, outras sensações, outros prazeres procuro apenas um. E esse nunca está lá. Saiba disso.

Saiba também que as noites são longas, muito longas. Enlouquecidamente agitadas e alucinadamente recheadas de fugas azuis, mas o meu desejo maior é de encontrar-me novamente naquelas tardes onde não é preciso fugir. Saiba disso.

Cansei da bela fuga. Essa beleza de andar, da solidão de cantar e rumar em outra direção não é mais a mesma. A liberdade reside também no direito de ficar. Cansei de dizer não. Chegou a hora de dizer sim.

Saiba disso.

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A trapaça

Ela dorme.

Por alguma outra piada do destino, a primeira visão que tive ao acordar foi de você, de olhos fechados, respirando suavemente e, provavelmente, sonhando com algum lugar melhor do que onde estávamos. Não pude sequer lhe beijar a testa, como faria normalmente. Não pude ficar olhando. Não pude fazer nada.

Me levantei rápido. Olhei a janela e percebi o sol já bastante forte. Procurei um cigarro e acendi. Peguei a guitarra que estava jogada num canto, me sentei e comecei a dedilhar os acordes da música que tinha aprendido no dia anterior. Você se moveu na cama, procurou por mim e me viu escondido atrás daquela música tocada baixinha, depois voltou a dormir, ou pelo menos fingiu fazer isso.

Enquanto tocava, meus pensamentos passaram pelo ocorrido. Cenas de um clipe triste, amargo e ressentido. Olhares não importavam mais. A música tinha tomado tons menores. As aventuras se encerravam e o que sobrava era a despedida, alguns cigarros e uma piada interna cuja graça havia passado. Talvez eu até desejasse que fosse diferente, mas o Orgulho (sempre ele) e o medo de abrir novas feridas em cima de velhas cicatrizes me impediam de mudar os fatos.

A verdade é que, como sempre, eu não estava lá. Essa força misteriosa que faz tudo passar veio e lhe levou. Você foi, como todas as outras coisas. Levou consigo aquelas risadas e uma boa quantidade de álcool e cigarros.

Eu, como sempre, trapaceando no jogo, não me permiti perder tudo. Emoldurei algumas emoções, alguns traços, alguns acordes, algumas lembranças. Você virou um personagem.

Agora é imortal.

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As coisas não são assim tão fáceis

Existe um longo caminho a percorrer. Procura em meio à escuridão por aquela razão. Aquele todo que sempre se oferece só pela metade. Sente o presente se esquivando do futuro e diz ser o tiro e a bala perdida. Finge dor pra ter o que sentir. Mas no final, lamenta ser assim. Mais do que nunca, agora sabe: a dor que sente é munição pras suas linhas e, talvez, não tenha o direito de sentir paz.

Descobriu que também lamenta cometer tantos erros. Tantos erros sem retorno. Erros silenciosos, sem espaço pra perdão. Acabou percebendo, talvez tarde demais que palavras machucam, mesmo quando não ditas. E que não adianta sair por aí, vagando por bares lotados de vidas vazias, procurando por uma paz declarada que só serve pra rechear ainda mais essas batalhas antigas. Mais uma vez estava ressacado da realidade e tomou um bom gole de ilusão.

Assegurou-se de ter aprendido que os olhos são o espelho da alma. Afinal, precisa levar alguma coisa e, com certeza, ninguém vai tirar esse aprendizado. Talvez, quanto maiores os olhos, maior a alma. Quem sabe? Definitivamente, você nunca saberá. Não tem esse direito. Não merece.

E nem pra isso você parece servir. Deu com a cabeça num poste e não adiantou. Continua exatamente o mesmo idiota. Disse que iria adquirir um cachorro, mas preferiu um gato. Não é responsável o suficiente pra criar um bicho tão dependente. Finge que o seu desprezo é “liberdade”, mas na verdade é pura falta de atenção, puro descuido. Nada intencional, só burrisse mesmo.

Agora encara essas páginas em branco que retratam sua vida. Você não passa de uma página sem dono esperando ser lida. Médico doente em busca de saúde. Hoje, se lembra dos dias, dos velhos momentos. Cabelos ao vento, o sol bem à frente. Ria de tudo, parecia piada. Mas a piada era você.

Um violão, uma guitarra, um assovio solitário. Avião no ar sem trem de pouso. Palavras bem grafadas com sentido vazio. Mente projetada em um outro espaço. Que espaço seria esse? Você não sabe. Não faz a mínima idéia de onde seja, ou mesmo de onde esteja.

O destino ri de você.

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Coisas que acontecem por aí…

Caminhar é sempre bom. Fundir-se aos seus próprios pensamentos e apreciar novas sensações surgindo em meio às próprias tempestades filosóficas. E fui num desses momentos que avistei algo que chamou muito minha curiosidade.

Cheguei à uma praça e, ao longe avistei uma garota muito bonita, caminhando ao lado de um garoto na mesma idade. Ao aproximarem-se, notei que a menina estava sendo puxada por uma coleira.

Eram apenas colegiais, deveriam estar no primeiro ou segundo ano do ensino médio.

Que coisa!

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Libertação prenunciada

Liberdade Prenunciada

Você se esforça o máximo possível para recuperar certos momentos. Visões do passado volta e meia passeiam pela sua mente. São os velhos fantasmas de sempre. Mas agora eles tomam outras formas, têm outro rosto. Eles têm um rosto do qual você gosta, um rosto que gostaria de ter por perto.

Quando menos espera, já começou a se repetir. Se iniciam os mesmos ciclos e aquele velho filme volta a rodar. Na sua mente se projetam imagens, sonhos. Uma fusão, uma dança entre o imaginário e o real, entre as sensações que são causadas pela sua mente e aquelas que está vivenciando naquele exato instante.

Você abraça, você beija e sorri. Se pega repetindo gestos, criando novos e pensando que poderia ter feito isso antes. Mas então, acha melhor esquecer tudo, deixar pra lá. Afinal, o que passou tão pouco interessa que você nem mesmo sabe qual foi a última festa. Isso é o que gosta de dizer pra si mesmo.

É hora de seguir em frente, diz. E se inicia uma jornada em busca de satisfação pessoal. Se inicia outra caçada e, mais rápido do que imaginava, acaba encontrando conforto. Passa a viver cada dia com a intensidade da morte prenunciada, como se tivesse enxergado o momento exato, o instante preciso no qual o seu último suspiro será dado e então haverá a libertação final. E, por mais impressionante que possa parecer, isso lhe agrada.

É então que as obsessões vão ficando pra trás. Sem perceber, você criou um novo universo pra si. Muito mais amplo, muito mais profundo. Nada mais lhe causa medo, nem a possibilidade de perder tudo. Simplesmente por que quer, na realidade, abandonar todas essas coisas, tangíveis e intangíveis.

Agora, ao invés de penetrar o universo dos outros, compreender cada centímetro de razão, você procura oferecer espaço para que essas pessoas possam entrar com toda a criação delas. Sabe que não adianta segurar o tempo, uma vez que ele escorre, inexorável, pelas suas mãos e vai levando consigo tudo o que veio em sua companhia.

Você aprendeu uma lição importante e, mais do que isso, agora pratica essa lição. Perdeu a compreensão de tudo e, por isso mesmo, passou a entender, de verdade. Se há dor, algo está errado. Se há repressão, há dor. Começou a admirar esse processo em sua essência. Sente o que ele lhe proporciona, viaja com ele no peito, está com ele, mas acima de tudo, é ele.

Luciano Ribeiro

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Não diga nada

Paixão, corpo e amor

Presume-se que um bom relacionamento surge através de uma longa conversa. Uma convivência, onde duas pessoas analisam, passo a passo, olhar a olhar, cada característica do outro, como quem escolhe minuciosamente um novo objeto de consumo. Esse é o padrão, o que dizem por aí os livros de auto-ajuda ser o “certo”, o lúcido.

O princípio é muito lógico. Uma decisão racional deve resultar numa consequência completamente racional e previsível. Logo, se a pessoa for escolhida com base em aspectos concretos, bem definidos, teremos uma relação estável, fundamentada no diálogo e compreensão. O sentimento, puro e completo, surge. Temos uma pessoa bonita, perfeitamente enquadrada nos nossos sonhos. Ou será que não?

Essa relação de sentimentalidade racionalizada pode mesmo ser vivida, até seria recomendado que todos tivessem esse tipo de experiência, apenas pra saber o quão decepcionante esse fracasso pode se tornar.

Palavras são o grande problema. Palavras não servem pra nada. A verdadeira comunicação não acontece quando elas são ditas. Nada do que você diz é efetivamente o que quer dizer de verdade. Não são as palavras que definem isso. É outra coisa. Outra coisa. Mas que coisa? Basta lembrar que os melhores momentos sempre são os de silêncio. Não é ouvindo que você sente. É respirando. Provando. Lambendo. Cheirando. Tocando. É assim que você diz e consegue ser entendido.

Ignore seus sentidos de longa distância: audição e visão. Faça contato através de suas mãos. Invada alguém. Cheire, lamba, morda. Apague a luz, sinta. Bata, se preciso for. Deite por cima, envolva. Viva esse agora.

Depois disso, ame.

Mas não diga nada.

Luciano Ribeiro

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Foda-se…

Mais uma noite sem dormir, outra noite de longas reflexões. Cigarro na mão esquerda e cerveja na direita. Na cadeira ao lado, alguém. O que importa?

Vivendo rápido, cada dia mais rápido. Loucuras, palavras ríspidas, mentiras, crueldade escorrendo pela língua.

Insanidade batendo à porta. Outra vez.

É assim que as coisas funcionam. E quando perguntam se ele se importa, o que dizer, a não ser “foda-se”?

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Pronto pra morrer?

Você está preparado pra morrer? Essa pergunta, aparentemente simples e, ao mesmo tempo, difícil de responder, acabou me trazendo uma luz que não imaginava encontrar tão cedo. Tudo isso pelo fato de estar diante de uma brusca mudança na minha vida.

Quando você imagina a morte como algo presente nesse processo contínuo de acordar/desacordar que chamamos de vida, acabamos por dar menos importância a certos “detalhes”, não nos abalamos por besteiras. Passamos a enfrentar esses dias e noites como pequenas etapas a serem superadas e fazemos todo o possível pra não deixar pendência alguma.

Falando de minhas próprias experiências, posso afirmar que deixar pendências do passado, como fantasmas a lhe assombrarem é a maneira mais fácil de tornar-se alguém infeliz. É a isso que me refiro quando digo “pronto pra morrer”.

Se você contar com a morte no dia de amanhã (ou hoje mesmo), será que não buscaria aquela liberdade, cuja existência sabemos estar apenas dentro de nós? Você ainda manteria aquela rixa que sabe ser apenas questão de orgulho? Você deixaria de dizer o quanto ama alguém? Ou, mais ainda, deixaria de dizer que não ama alguém?

Deixemos a mediocridade de lado. Vivamos o presente contínuo. Saibamos que tudo muda. Impermanência. Realizemos nossos desejos. Façamos loucuras.

E lembrem-se sempre de avisar às pessoas: “todos vamos morrer”.

Luciano Ribeiro
Preparando-se pra morrer

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About the dream…

Parecia muito fácil largar td quando pouco eu tinha a perder. Agora as oportunidades vão se abrindo e nem faço idéia do que fazer… abandonar td? Correr desesperadamente pra um mundo novo? Esquecer o passado de vez?

Minhas velhas pendências estão resolvidas. Todo o peso de um passado obscuro finalmente está desaparecendo, mesmo com as minhas velhas motivações desvinculadas de mim.

Hoje já percebo o que me corroía. Falta de substâncias, falta de fibra pra resistir. Falta de apoio moral, falta de humildade pra buscar ajuda. Muita falta em meio aos excessos.

De alguma forma inesperada, novos excessos surgiram. Mas hoje tenho uma sabedoria pra suportar o desamparo posterior que antes não tinha.

Esse é o meu eu de hj. O que dirá dele meu eu de amanhã?

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