Tag Archive for 'beijo'

Saiba disso

Chegou a hora de dizer sim.

Quando saio, procuro por você pelas ruas. Saiba disso.

Saiba também que bebo na esperança de conseguir, por um completo desatino, criar coragem de telefonar-lhe outra vez. E que sinto saudade do tempo em que eu conseguia ser menos corajoso e mais inconseqüente. Dessa forma, não teria receio algum do que você pensaria ao ver o meu número chamando no seu celular.

Às vezes ando pela cidade, por lugares os quais realmente não fazem parte da minha trajetória, ansioso pelo momento em que vou lhe enxergar, mesmo que ao longe. Saiba disso.

Saiba que os meus cigarros estão prestes a acabar e, toda vez que isso acontece, lembro-me que você não vai estar ali pra me lembrar que preciso cuidar da minha saúde, ou não posso me desgastar tanto por besteiras sem utilidade. Saiba disso.

Saiba que às vezes beijo, abraço, passo as mãos por cabelos e sinto cheiros. E nesses outros corpos, outras sensações, outros prazeres procuro apenas um. E esse nunca está lá. Saiba disso.

Saiba também que as noites são longas, muito longas. Enlouquecidamente agitadas e alucinadamente recheadas de fugas azuis, mas o meu desejo maior é de encontrar-me novamente naquelas tardes onde não é preciso fugir. Saiba disso.

Cansei da bela fuga. Essa beleza de andar, da solidão de cantar e rumar em outra direção não é mais a mesma. A liberdade reside também no direito de ficar. Cansei de dizer não. Chegou a hora de dizer sim.

Saiba disso.

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A trapaça

Ela dorme.

Por alguma outra piada do destino, a primeira visão que tive ao acordar foi de você, de olhos fechados, respirando suavemente e, provavelmente, sonhando com algum lugar melhor do que onde estávamos. Não pude sequer lhe beijar a testa, como faria normalmente. Não pude ficar olhando. Não pude fazer nada.

Me levantei rápido. Olhei a janela e percebi o sol já bastante forte. Procurei um cigarro e acendi. Peguei a guitarra que estava jogada num canto, me sentei e comecei a dedilhar os acordes da música que tinha aprendido no dia anterior. Você se moveu na cama, procurou por mim e me viu escondido atrás daquela música tocada baixinha, depois voltou a dormir, ou pelo menos fingiu fazer isso.

Enquanto tocava, meus pensamentos passaram pelo ocorrido. Cenas de um clipe triste, amargo e ressentido. Olhares não importavam mais. A música tinha tomado tons menores. As aventuras se encerravam e o que sobrava era a despedida, alguns cigarros e uma piada interna cuja graça havia passado. Talvez eu até desejasse que fosse diferente, mas o Orgulho (sempre ele) e o medo de abrir novas feridas em cima de velhas cicatrizes me impediam de mudar os fatos.

A verdade é que, como sempre, eu não estava lá. Essa força misteriosa que faz tudo passar veio e lhe levou. Você foi, como todas as outras coisas. Levou consigo aquelas risadas e uma boa quantidade de álcool e cigarros.

Eu, como sempre, trapaceando no jogo, não me permiti perder tudo. Emoldurei algumas emoções, alguns traços, alguns acordes, algumas lembranças. Você virou um personagem.

Agora é imortal.

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Libertação prenunciada

Liberdade Prenunciada

Você se esforça o máximo possível para recuperar certos momentos. Visões do passado volta e meia passeiam pela sua mente. São os velhos fantasmas de sempre. Mas agora eles tomam outras formas, têm outro rosto. Eles têm um rosto do qual você gosta, um rosto que gostaria de ter por perto.

Quando menos espera, já começou a se repetir. Se iniciam os mesmos ciclos e aquele velho filme volta a rodar. Na sua mente se projetam imagens, sonhos. Uma fusão, uma dança entre o imaginário e o real, entre as sensações que são causadas pela sua mente e aquelas que está vivenciando naquele exato instante.

Você abraça, você beija e sorri. Se pega repetindo gestos, criando novos e pensando que poderia ter feito isso antes. Mas então, acha melhor esquecer tudo, deixar pra lá. Afinal, o que passou tão pouco interessa que você nem mesmo sabe qual foi a última festa. Isso é o que gosta de dizer pra si mesmo.

É hora de seguir em frente, diz. E se inicia uma jornada em busca de satisfação pessoal. Se inicia outra caçada e, mais rápido do que imaginava, acaba encontrando conforto. Passa a viver cada dia com a intensidade da morte prenunciada, como se tivesse enxergado o momento exato, o instante preciso no qual o seu último suspiro será dado e então haverá a libertação final. E, por mais impressionante que possa parecer, isso lhe agrada.

É então que as obsessões vão ficando pra trás. Sem perceber, você criou um novo universo pra si. Muito mais amplo, muito mais profundo. Nada mais lhe causa medo, nem a possibilidade de perder tudo. Simplesmente por que quer, na realidade, abandonar todas essas coisas, tangíveis e intangíveis.

Agora, ao invés de penetrar o universo dos outros, compreender cada centímetro de razão, você procura oferecer espaço para que essas pessoas possam entrar com toda a criação delas. Sabe que não adianta segurar o tempo, uma vez que ele escorre, inexorável, pelas suas mãos e vai levando consigo tudo o que veio em sua companhia.

Você aprendeu uma lição importante e, mais do que isso, agora pratica essa lição. Perdeu a compreensão de tudo e, por isso mesmo, passou a entender, de verdade. Se há dor, algo está errado. Se há repressão, há dor. Começou a admirar esse processo em sua essência. Sente o que ele lhe proporciona, viaja com ele no peito, está com ele, mas acima de tudo, é ele.

Luciano Ribeiro

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