
Presume-se que um bom relacionamento surge através de uma longa conversa. Uma convivência, onde duas pessoas analisam, passo a passo, olhar a olhar, cada característica do outro, como quem escolhe minuciosamente um novo objeto de consumo. Esse é o padrão, o que dizem por aí os livros de auto-ajuda ser o “certo”, o lúcido.
O princípio é muito lógico. Uma decisão racional deve resultar numa consequência completamente racional e previsível. Logo, se a pessoa for escolhida com base em aspectos concretos, bem definidos, teremos uma relação estável, fundamentada no diálogo e compreensão. O sentimento, puro e completo, surge. Temos uma pessoa bonita, perfeitamente enquadrada nos nossos sonhos. Ou será que não?
Essa relação de sentimentalidade racionalizada pode mesmo ser vivida, até seria recomendado que todos tivessem esse tipo de experiência, apenas pra saber o quão decepcionante esse fracasso pode se tornar.
Palavras são o grande problema. Palavras não servem pra nada. A verdadeira comunicação não acontece quando elas são ditas. Nada do que você diz é efetivamente o que quer dizer de verdade. Não são as palavras que definem isso. É outra coisa. Outra coisa. Mas que coisa? Basta lembrar que os melhores momentos sempre são os de silêncio. Não é ouvindo que você sente. É respirando. Provando. Lambendo. Cheirando. Tocando. É assim que você diz e consegue ser entendido.
Ignore seus sentidos de longa distância: audição e visão. Faça contato através de suas mãos. Invada alguém. Cheire, lamba, morda. Apague a luz, sinta. Bata, se preciso for. Deite por cima, envolva. Viva esse agora.
Depois disso, ame.
Mas não diga nada.
Luciano Ribeiro