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Libertação prenunciada

Liberdade Prenunciada

Você se esforça o máximo possível para recuperar certos momentos. Visões do passado volta e meia passeiam pela sua mente. São os velhos fantasmas de sempre. Mas agora eles tomam outras formas, têm outro rosto. Eles têm um rosto do qual você gosta, um rosto que gostaria de ter por perto.

Quando menos espera, já começou a se repetir. Se iniciam os mesmos ciclos e aquele velho filme volta a rodar. Na sua mente se projetam imagens, sonhos. Uma fusão, uma dança entre o imaginário e o real, entre as sensações que são causadas pela sua mente e aquelas que está vivenciando naquele exato instante.

Você abraça, você beija e sorri. Se pega repetindo gestos, criando novos e pensando que poderia ter feito isso antes. Mas então, acha melhor esquecer tudo, deixar pra lá. Afinal, o que passou tão pouco interessa que você nem mesmo sabe qual foi a última festa. Isso é o que gosta de dizer pra si mesmo.

É hora de seguir em frente, diz. E se inicia uma jornada em busca de satisfação pessoal. Se inicia outra caçada e, mais rápido do que imaginava, acaba encontrando conforto. Passa a viver cada dia com a intensidade da morte prenunciada, como se tivesse enxergado o momento exato, o instante preciso no qual o seu último suspiro será dado e então haverá a libertação final. E, por mais impressionante que possa parecer, isso lhe agrada.

É então que as obsessões vão ficando pra trás. Sem perceber, você criou um novo universo pra si. Muito mais amplo, muito mais profundo. Nada mais lhe causa medo, nem a possibilidade de perder tudo. Simplesmente por que quer, na realidade, abandonar todas essas coisas, tangíveis e intangíveis.

Agora, ao invés de penetrar o universo dos outros, compreender cada centímetro de razão, você procura oferecer espaço para que essas pessoas possam entrar com toda a criação delas. Sabe que não adianta segurar o tempo, uma vez que ele escorre, inexorável, pelas suas mãos e vai levando consigo tudo o que veio em sua companhia.

Você aprendeu uma lição importante e, mais do que isso, agora pratica essa lição. Perdeu a compreensão de tudo e, por isso mesmo, passou a entender, de verdade. Se há dor, algo está errado. Se há repressão, há dor. Começou a admirar esse processo em sua essência. Sente o que ele lhe proporciona, viaja com ele no peito, está com ele, mas acima de tudo, é ele.

Luciano Ribeiro

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