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Desculpas

Johnny Cash em fuga...

Queria pedir desculpas a todas as pessoas que procuraram por mim e eu não estava lá. Àquelas que quiseram estar comigo e eu fugi. Às pessoas que quiseram me amar e eu não deixei. Àquelas que precisaram de mim e eu decepcionei.

Queria pedir desculpas também por todas as vezes que ostentei uma falsa perfeição moral, agredindo os que não tinham medo de admitir a sua natureza humana.

Também peço àqueles que eu abusei do direito de ser humano e forcei erros e mais erros, falhas e mais falhas, com boas ou más intenções. Afinal, erros são sempre erros e machucam da mesma forma.

A você em especial, peço desculpas por ter deixado o telefone tocando, sabendo que tudo o que queria era ouvir a minha voz, desabafar sobre o dia ou me contar uma novidade. Desculpa. Saiba que hoje me arrependo de não ter permitido a sua aproximação. De uma forma que só o destino ou Deus sabe fazer, agora sofro o que mereço. Essa sensação de ficar esperando o telefone tocar e lembrar que mandei todos embora não é das melhores. Mas é o preço e eu preciso pagar. Talvez lhe console saber que passo por isso.

Existem também aqueles que não fui capaz de perdoar. Peço desculpas pelas coisas que falei, pelas artimanhas que tramei e também por ter ido tão longe em nome da vingança.

Peço desculpas por ter feito tantas besteiras em nome do orgulho, medo e egoísmo. Por aquelas vezes em que deixei alguém na mão apenas pra sair por cima. Por todos que ofendi por terem feito algo que considerei humilhação (muitas vezes nem eram). E todas as vezes que pensei apenas em mim, magoando alguém.

Desculpa, o problema é comigo.

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A trapaça

Ela dorme.

Por alguma outra piada do destino, a primeira visão que tive ao acordar foi de você, de olhos fechados, respirando suavemente e, provavelmente, sonhando com algum lugar melhor do que onde estávamos. Não pude sequer lhe beijar a testa, como faria normalmente. Não pude ficar olhando. Não pude fazer nada.

Me levantei rápido. Olhei a janela e percebi o sol já bastante forte. Procurei um cigarro e acendi. Peguei a guitarra que estava jogada num canto, me sentei e comecei a dedilhar os acordes da música que tinha aprendido no dia anterior. Você se moveu na cama, procurou por mim e me viu escondido atrás daquela música tocada baixinha, depois voltou a dormir, ou pelo menos fingiu fazer isso.

Enquanto tocava, meus pensamentos passaram pelo ocorrido. Cenas de um clipe triste, amargo e ressentido. Olhares não importavam mais. A música tinha tomado tons menores. As aventuras se encerravam e o que sobrava era a despedida, alguns cigarros e uma piada interna cuja graça havia passado. Talvez eu até desejasse que fosse diferente, mas o Orgulho (sempre ele) e o medo de abrir novas feridas em cima de velhas cicatrizes me impediam de mudar os fatos.

A verdade é que, como sempre, eu não estava lá. Essa força misteriosa que faz tudo passar veio e lhe levou. Você foi, como todas as outras coisas. Levou consigo aquelas risadas e uma boa quantidade de álcool e cigarros.

Eu, como sempre, trapaceando no jogo, não me permiti perder tudo. Emoldurei algumas emoções, alguns traços, alguns acordes, algumas lembranças. Você virou um personagem.

Agora é imortal.

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