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Saudade nos olhos de um gato

Tenho sentido uma saudade positiva de algumas coisas. É bom sentir falta de pequenos prazeres, como tirar uma boa fotografia, escrever uma crônica, uma música. Simplesmente sentar num lugar que tenha bastante verde e ficar ali, lendo e pensando na vida. Depois de tanto passar por momentos de loucura, bateu a vontade de sossegar de novo. Isso, claro, independente de qualquer outro fator externo. Uma decisão completamente autônoma, o que me faz sentir orgulhoso pela maneira como tenho agido ultimamente.

Por isso, hoje (ou ontem, quem sabe) pode ser o dia da saudade. Pode ser o dia da nostalgia. Mas essa não é mais capaz de machucar. Na verdade, NUNCA foi capaz de causar dano algum. Agora consigo ter boas sensações apreciando essas velhas imagens. Talvez pudesse fazer tudo diferente, se tivesse uma oportunidade de começar de novo. Mas pensar nisso é apenas masturbação mental. Não leva a lugar algum.

Saudade nos olhos de um gatoÉ estranho olhar pras suas atitudes mais importantes num passado recente e observar o quanto é possível fazer uma reviravolta em pouco tempo. Chega a ser engraçado, pra não dizer ridículo, ver que podemos estragar todo o nosso momento presente em culpa por causa das coisas que já fizemos e com medo do que o futuro nos reserva.

Talvez, o velório mais difícil da minha vida não tenha sido de nenhum parente ou amigo, mas do passado e do meu medo. Assim, pude notar com toda a clareza de quem está apenas olhando de longe que perdi os melhores anos, as melhores companhias, as melhores noites sofrendo em pânico de um monstro invisível, um fantasma que só existia na minha cabeça incontrolavelmente fértil.

A dica do dia é que acendamos uma vela para o nosso passado. Paremos de perder tempo imaginando o futuro. A vida acontece no presente, nesse exato segundo que não podemos segurar. Nesse exato instante que acabou de passar quando você leu essa linha. Então, meus amigos, parem de perder tempo comigo e vão aproveitar vida, que pode não ser um paraíso, mas ainda assim é doce.

Luciano Ribeiro

PS.: O gato da foto é o meu Hobbes :)

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As coisas não são assim tão fáceis

Existe um longo caminho a percorrer. Procura em meio à escuridão por aquela razão. Aquele todo que sempre se oferece só pela metade. Sente o presente se esquivando do futuro e diz ser o tiro e a bala perdida. Finge dor pra ter o que sentir. Mas no final, lamenta ser assim. Mais do que nunca, agora sabe: a dor que sente é munição pras suas linhas e, talvez, não tenha o direito de sentir paz.

Descobriu que também lamenta cometer tantos erros. Tantos erros sem retorno. Erros silenciosos, sem espaço pra perdão. Acabou percebendo, talvez tarde demais que palavras machucam, mesmo quando não ditas. E que não adianta sair por aí, vagando por bares lotados de vidas vazias, procurando por uma paz declarada que só serve pra rechear ainda mais essas batalhas antigas. Mais uma vez estava ressacado da realidade e tomou um bom gole de ilusão.

Assegurou-se de ter aprendido que os olhos são o espelho da alma. Afinal, precisa levar alguma coisa e, com certeza, ninguém vai tirar esse aprendizado. Talvez, quanto maiores os olhos, maior a alma. Quem sabe? Definitivamente, você nunca saberá. Não tem esse direito. Não merece.

E nem pra isso você parece servir. Deu com a cabeça num poste e não adiantou. Continua exatamente o mesmo idiota. Disse que iria adquirir um cachorro, mas preferiu um gato. Não é responsável o suficiente pra criar um bicho tão dependente. Finge que o seu desprezo é “liberdade”, mas na verdade é pura falta de atenção, puro descuido. Nada intencional, só burrisse mesmo.

Agora encara essas páginas em branco que retratam sua vida. Você não passa de uma página sem dono esperando ser lida. Médico doente em busca de saúde. Hoje, se lembra dos dias, dos velhos momentos. Cabelos ao vento, o sol bem à frente. Ria de tudo, parecia piada. Mas a piada era você.

Um violão, uma guitarra, um assovio solitário. Avião no ar sem trem de pouso. Palavras bem grafadas com sentido vazio. Mente projetada em um outro espaço. Que espaço seria esse? Você não sabe. Não faz a mínima idéia de onde seja, ou mesmo de onde esteja.

O destino ri de você.

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Libertação prenunciada

Liberdade Prenunciada

Você se esforça o máximo possível para recuperar certos momentos. Visões do passado volta e meia passeiam pela sua mente. São os velhos fantasmas de sempre. Mas agora eles tomam outras formas, têm outro rosto. Eles têm um rosto do qual você gosta, um rosto que gostaria de ter por perto.

Quando menos espera, já começou a se repetir. Se iniciam os mesmos ciclos e aquele velho filme volta a rodar. Na sua mente se projetam imagens, sonhos. Uma fusão, uma dança entre o imaginário e o real, entre as sensações que são causadas pela sua mente e aquelas que está vivenciando naquele exato instante.

Você abraça, você beija e sorri. Se pega repetindo gestos, criando novos e pensando que poderia ter feito isso antes. Mas então, acha melhor esquecer tudo, deixar pra lá. Afinal, o que passou tão pouco interessa que você nem mesmo sabe qual foi a última festa. Isso é o que gosta de dizer pra si mesmo.

É hora de seguir em frente, diz. E se inicia uma jornada em busca de satisfação pessoal. Se inicia outra caçada e, mais rápido do que imaginava, acaba encontrando conforto. Passa a viver cada dia com a intensidade da morte prenunciada, como se tivesse enxergado o momento exato, o instante preciso no qual o seu último suspiro será dado e então haverá a libertação final. E, por mais impressionante que possa parecer, isso lhe agrada.

É então que as obsessões vão ficando pra trás. Sem perceber, você criou um novo universo pra si. Muito mais amplo, muito mais profundo. Nada mais lhe causa medo, nem a possibilidade de perder tudo. Simplesmente por que quer, na realidade, abandonar todas essas coisas, tangíveis e intangíveis.

Agora, ao invés de penetrar o universo dos outros, compreender cada centímetro de razão, você procura oferecer espaço para que essas pessoas possam entrar com toda a criação delas. Sabe que não adianta segurar o tempo, uma vez que ele escorre, inexorável, pelas suas mãos e vai levando consigo tudo o que veio em sua companhia.

Você aprendeu uma lição importante e, mais do que isso, agora pratica essa lição. Perdeu a compreensão de tudo e, por isso mesmo, passou a entender, de verdade. Se há dor, algo está errado. Se há repressão, há dor. Começou a admirar esse processo em sua essência. Sente o que ele lhe proporciona, viaja com ele no peito, está com ele, mas acima de tudo, é ele.

Luciano Ribeiro

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